Onze segundos, direitos e especulação irresponsável

Sabe-se que, na estruturação dos mercados, os efeitos das decisões econômicas sobre a fruição de direitos humanos e fundamentais não entram na equação. Por isso, o funcionamento dos mercados pode trazer tanto o bem quanto o mal. Por exemplo, muitas decisões econômicas podem resultar em maior deterioração do consumo de populações já empobrecidas, ou em riscos ou prejuízos extremos ao meio ambiente.

O divórcio que usualmente separa as regras de funcionamento dos mercados e preocupações com a fruição de direitos humanos e fundamentais parece ser mais agudo no caso de mercados financeiros. A busca de margens de retorno muito elevadas e em prazos sempre menores resulta no uso de verdadeiros robôs (no lugar de pessoas) como agentes de mercado. São as transações computadorizadas (também chamadas algorithmic trading), que, ao menos desde meados de 2009, passaram a preocupar quem tem idéia das potenciais consequências do uso da tecnologia da informação para robotizar os mercados (ver aqui e aqui).

Sobre isto tem circulado a informação de que, em 70% de todas as transações em bolsa, os operadores mantêm  direito sobre os ativos transacionados por apenas onze segundos (ver aqui e também aqui). Depois desse prazo, desfazem-se do que adquiriram (ou de ativos sobre os quais informaram a intenção de adquirir) e passam para outra operação, de onze segundos. Isto ocorrem em 70% dos casos. São os Investidores de Alta Frequência (HFTs, na sigla em inglês). E o fato de que os programas de computador, que conduzem automaticamente as operações, sejam propriedade privada simplesmente torna o problema mais difícil de ser resolvido. Este é um cenário, aliás, que casa muito bem com o das transformações da advocacia.

Pode-se dizer, portanto, que, de onze em onze segundos, movidos por programas de computador, os operadores do mercado assumem um padrão de especulação que dificilmente pode ser compatibilizado com alguma concepção de responsabilidade, muito menos a que seria exigível diante do desiderato de que as instituições, sendo econômicas ou não, contribuam para efetivar a fruição de direitos humanos e fundamentais no mundo.

[Atualização 09-jan-2011: Veja mais informações sobre o “ecosistema eltrônico-financeiro” de New Jersey aqui.]

Aparentemente, todos os que quiserem podem entrar na dança. A Bovespa recentemente deu as boas vindas aos HFTs (ver aqui). E é compreensível (até louvável) que o tenha feito, pois, do contrário, em tese perderia clientes para bolsas estrangeiras. O ponto é que o funcionamento dos mercados financeiros em geral não deveria ser completamente destituído de regras jurídicas que tivessem o objetivo de proteger a sociedade dos excessos especulativos dos financistas — e seus robôs. Este é um assunto que não está na pauta dos políticos, nem de fóruns como o Financial Stability Board (FSB), que assessora o G20, ou a International Organization of Securities Commissions (IOSCO).

Portanto, se o mundo caminhar para algo parecido com o que está representado no filme The Matrix, não será por acaso.

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Ver neste blog algumas matérias correlatas:

4 Responses to Onze segundos, direitos e especulação irresponsável

  1. Fábio Portela says:

    Discordo da preocupação com a negociação de ações por meio dos robôs. Eles já quebraram o mercado em 1987 e os investidores de longo prazo aproveitaram a quebradeira para comprar mais ações. Só quem sofre prejuízo é quem tem um curto prazo pouco maior do que os robôs. Direitos humanos seriam melhor servidos pelo mercado de ações se houvesse mais pessoas de países pobres investindo nelas, ao invés da poupança.

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  2. […] Foi indicada neste blog a expansão da prática, nos mercados financeiros, conhecida como algorithmic trading e seu desenvolvimento na classe de operações de mercado chamada high frequency trading (HFT) (operações de alta frequência) — ver aqui. […]

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  3. […] lançar e relançar os seus “votos” em muitas jurisdições em todo o mundo, a cada segundo ou milissegundo e quase continuamente – tornaram-se claramente ultrapassadas. Neste ambiente político e […]

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