Crise deflagra corrida para o futuro

Em meio à atual crise, ao que parece, está dada a largada na “corrida” de atores internacionais relevantes, que anseiam por participar da construção das novas bases institucionais da operação de segmentos importantes dos mercados financeiros — e de suas conexões com outros mercados.

Esses atores internacionais, por enquanto, incluem ao menos: o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM), a China, os atuais candidatos a ocupar a Casa Branca (McCain e Obama) — e também o chamado G-20.

A “corrida”, obviamente, é pelo estabelecimento de condições políticas estratégicas para determinar o direcionamento da provável negociação de “novas regras”, com base nas quais ao menos partes significativas dos mercados financeiros operarão no futuro. Abaixo estão algumas indicações das movimentações.

  • O FMI — Lançou a sua página sobre “Estabilidade Financeira” e procura recuperar-se de uma história recente de relativo descrédito, explorando sua capacidade de produção de inteligência financeira de caráter global e candidatando-se a passar a ser um fórum de articulação internacional de novas regras para a coordenação política e técnica das finanças mundiais.
  • O BM — O presidente da entidade, Robert Zoellick (e cogitado para ser Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, se McCain vencer), fez pronunciamento (ver também aqui) com teor semelhante ao do FMI, mas chegou a sugerir novidades, especialmente a necessidade de construção de um “novo multilateralismo“. Nas suas palavras: “necessitaremos de uma nova rede multilateral para uma nova economia global”. E declarou que, para a cooperação financeira e econômica, seria preciso contar com a participação efetiva de países como o Brasil, India, China, México, Rússia, Arábia Saudita e África do Sul, além do G-7.
  • Os candidatos à Casa Branca — No debate de ontem entre os presidenciáveis, McCain prometeu um plano para reorganizar a confusão das hipotecas e Obama sinalizou com as virtudes de uma “economia verde”, em que cinco milhões de “empregos verdes” poderão ser criados, diminuindo a dependência da sociedade norte-americana em relação à importação de petróleo. Da proposta de Obama, derivam prováveis corolários para que as “finanças verdes” tornem-se um paradigma, com conseqüências para a regulação financeira suas relações com os investimentos (ver discussões aqui e aqui).
  • O G20 — O Ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, convocou uma reunião deste grupo, uma espécie de “bancada” formada de ministros das finanças de 12 países mais representantes do G-7 e outros. O Brasil ocupa hoje a presidência desse grupo, que poderá tornar-se um ator estratégico para os encaminhamentos políticos de soluções de estabilização financeira no mundo no futuro próximo. Comparações com o outro G-20, que atua na área comercial, seriam, em termos de potencial impacto político, certamente exageradas. Contudo, esta talvez seja uma oportunidade para que o G-20 da área financeira se torne uma plataforma de articulação com uma importância política maior da que teve até hoje.

Sejam quais forem as medidas emergenciais para enfrentar a crise, parece claro que se abre agora a oportunidade para a construção de “novas bases” de cooperação internacional nos campos monetário e financeiro. Se isto será realmente possível dependerá de liderança internacional.

Por outro lado, havendo a construção de novas regras e princípios internacionais para o mundo das finanças, resta a questão: em que medida as novas bases de cooperação poderão evitar que a moeda e o crédito tornem-se ameaças à fruição dos direitos fundamentais e dos direitos humanos?

As propostas da campanha do senador Obama, com ênfase no investimento verde (uma das espécies de investimento ético, como também são as práticas abrigadas sob as finanças islâmicas), em tese, se prestariam a fazer pontes para transformar em realidade a vinculação da regulação financeira, de caráter público, à proteção de direitos fundamentais e direitos humanos.

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