Críticas à crise e ao pacote de socorro

No momento em que correm notícias sobre difíceis negociações políticas nos Estados Unidos (ver aqui e aqui) em torno de um “pacote” de 700 bilhões de dólares para controlar a crise financeira, circulam diversas críticas às propostas na mesa — que terão obviamente conseqüências para o mundo todo.

Várias dessas críticas dizem respeito à percepção de que o resgate das grandes empresas financeiras dos Estados Unidos vai acrescentar muita gente à ‘cadeia alimentar‘ criada pelas finanças esotéricas de Wall Street: a conta será paga por contribuintes americanos ao longo de anos. Se fosse prevalecer o plano inicial, essa conta incluiria ainda pagamentos “estratosféricos” (o termo foi utilizado pelo jornal The New York Times; ver também estudo do IPS citado aqui) para os que são indicados como “culpados” pela crise, a saber, os financistas dos bancos de investimento, fundos hedge e outras entidades.

Por outro lado, o ministro das finanças alemão, Peer Steinbruck, formulou um ataque frontal aos Estados Unidos e seu estilo de impulsionar os mercados financeiros. Nesse ataque, Steinbruck ecoa as críticas que já fazia há tempos, inclusive nas negociações do G8 em 2007, contra a “auto regulação” desses mercados. Na reunião do G8 na Alemanha em 2007, vários países desse clube, inclusive a Alemanha, pressionaram no sentido de que fosse aprovada a proposta de regulação do capital especulativo — mas venceram os Estados Unidos e a Inglaterra, favoráveis à auto-regulação (ver aqui). Desta vez, em 2008, a história foi outra.

Steinbruck anunciou que o sistema financeiro mundial se tornará “multipolar” e defende uma regulação “global” (ver ainda aqui e aqui).

Também o Arcebispo de Canterbury, principal autoridade da Igreja Anglicana em todo o mundo, criticou acerbamente as práticas que, nas suas palavras, correspondem a uma “idolatria” do mercado. O Arcebispo de York também formulou críticas (ver aqui). Os argumentos da Igreja Anglicana foram contestados por agentes financeiros da City londrina, mas fazem aparecer a enorme desproporção, difícil de se justificar, entre a magnitude dos valores envolvidos no resgate oferecido a Wall Street e o que, por exemplo, os países ricos, bilateralmente ou por meio da Organização das Nações Unidas (ONU), se comprometem a oferecer aos países em desenvolvimento como assistência financeira internacional. A ilustração, com gráficos, produzida pelo jornal The Independent, é informativa a esse respeito.

Sugestões de planos “alternativos” ao do governo também começam a aparecer. Um deles é o do professor de direito, Lucian Bebchuck (indicação de Rodrik). Na proposta de Bebchuck, haveria um uso do dinheiro dos contribuintes de maneira menos generosa para com os executivos das empresas financeiras. O levantamento de recursos junto ao setor privado e a competição entre múltiplos fundos de investimento a serem criados com o “pacote” de ajuda oficial seriam também ingredientes da fórmula alternativa. Ver outras alternativas (genericamente formuladas, por parte da sociedade civil, aqui e aqui — agradecimentos a Micheline Neiva pela indicação deste último documento). E há a proposta de soluções ao estilo adotado pela Suécia para enfrentar a sua crise financeira nos anos 1990.

Como se vê, a confusão política e de idéias sobre o que fazer não é pouca. De qualquer modo, pode-se sustentar que a falta de regulação das finanças é uma situação que não deve permanecer. Certamente é defensável que tal regulação seja feita por meio de regras que incorporem o interesse público e atrelem os mercados ao objetivo de possibilitar primordialmente a fruição dos direitos fundamentais e dos direitos humanos, por meio de uma coordenação internacional da regulação financeira, calcada em princípios jurídicos e metodologias de análise muitidisciplinar apropriadas para tal fim, tendo em vista a criação de um outro padrão civilizatório . Diante do que nos revela a crise, este parece ser um desiderato cuja realização é inadiável.

One Response to Críticas à crise e ao pacote de socorro

  1. rgr1 says:

    Ainda que o Governo dos Estados Unidos obtenha sucesso nessa fabulosa operação de resgate financeiro, no final o estabelecimento de uma autoridade monetária mundial, que fiscalizaria os mercados financeiros, ganhará força nos debates políticos.

    Se essa crise é mundial, todos os passos já deveriam sinalizar não apenas para a solução imediata, mas, principalmente, redirecionar os trilhos do mercado.

    A estrutura atual de instituições internacionais (FMI, G7, BIS, Banco Mundial) é incapaz de fiscalizar o sistema financeiro, que continua evoluindo. Essa evolução não é compatível com nenhum crescimento de PIB de nenhum país. O mercado financeiro cresceu de uma faixa de $12 trilhões, em 1980, para algo próximo a $200 trilhões. Se o comércio mundial ficou longe dessa expansão, proporcionalmente, algo de incomum estava acontecendo debaixo dos nossos olhos.

    Paul Volcker estava correto: “o brilhante sistema financeiro foi reprovado no teste do mercado”. E isso, somado o estilo caubói do capitalismo norte-americano com a desregulamentação desse mercado, na década de 90, comprovou a tese de Kaynes de que os mercados financeiros não se autocorrigiam, como argumentavam economistas clássicos. Ora “quando o desenvolvimento do capital de um país se torna o subproduto das atividades de um cassino, o trabalho acaba ficando malfeito”.

    De fato, a proposição do Professor Faro de que é inadiável discutir um novo modelo é apropriada e tempestiva.

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