Economia, psicanálise, finanças e irracionalidade

O quanto as ações e decisões dos indivíduos ou grupos se alimentam de fantasias, e não de idéias racionais, é um tópico que importa ao entendimento de como diversos mercados funcionam. É também um tema que diz respeito (ao menos) a abordagens tanto econômicas quanto psicanalíticas dos fenômenos humanos.

Com o desprendimento e a habilidade do bom ensaísta jornalístico, é possível traçar, inclusive com leveza e humor, diversos paralelos entre as relações econômicas e as amorosas — ver exemplo aqui. Mas o assunto, evidentemente, pode receber tratamento acadêmico também.

Assim, por exemplo, um artigo recente, de autoria dos professores David Tuckett, da University College London (UCL) e Richard Taffler, da University of Edinburgh, discorre sobre assunto relevante, derivado dessa interseção entre economia e psicanálise (indicação de 2UBH). O título do trabalho, publicado em abril de 2008 no International Journal of Psychoanalysis é: “Phantastic objetcs and the financial market’s sense of reality: a psychoanalytic contribution to the understanding of stock market instability” [Objetos fantásticos e o sentido de realidade dos mercados financeiros: uma contribuição psicanalítica ao entendimento da instabilidade dos mercados de ações].

Em nota à imprensa, divulgada pela UCL, o professor Tuckett explicita parte dos argumentos do trabalho, que têm paralelos com argumentos sobre as relações amorosas:

“Sentimentos e ‘fantasias’ inconscientes são importantes; não se trata simplesmente de uma questão de [alguém] ser racional quando opera no mercado. O mercado é dominado por profissionais racionais e inteligentes, mas os investimentos mais atraentes envolvem palpites (guesses) sobre um futuro incerto, e a incerteza cria sentimentos. Quando há novos investimentos empolgantes cujo resultado é incerto, a maioria dos investidores profissionais pode ser pego na onda de que ‘todos estão fazendo, eu também devia’, que conduz [tais profissionais] primeiro a subestimar, e então após o pânico e o estouro de uma bolha, a superestimar os riscos de um investimento”.

Porém, há muito mais na interface entre economia e psicologia, como, por exemplo, os trabalhos que consagraram o psicólogo Daniel Kahneman (ele dividiu o prêmio Nobel de Economia com Vernon Smith em 2002), dando impulso à chamada “Economia Comportamental” e o ao campo cognato das “Finanças Comportamentais” (ver também aqui e aqui). Há, ainda, o interesse no que John Maynard Keynes chamou de “uncertain expectations” e “animal spirits”, como parte das motivações de comportamentos economicamente relevantes.

Tudo isso suscita dúvidas a respeito da validade dos pressupostos da economia neo-clássica, que alimenta a perspectiva da chamada “Análise Econômica do Direito” (ou “Economic Analysis of Law“).

2 Responses to Economia, psicanálise, finanças e irracionalidade

  1. paulocasao says:

    Tratam-se de questões verdadeiramente interessantes. Uma instituição que vem lidando com as mesmas de maneira bastante rigorosa e original é o Max Planck Institute for Research on Collective Goods (http://www.coll.mpg.de/), em Bonn, Alemanha. No que se refere especificamente à pesquisa em que aspectos de psicologia comportamental é unida ao direito e à economia, ver em http://www.coll.mpg.de/pdf_dat/Report2005/ReportCII.pdf.

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  2. […] Como evidenciado no nome mesmo desse programa acadêmico, a iniciativa viabiliza-se com o aporte de recursos financeiros oferecidos pelo escritório de advocacia Wachtell, Lipton, Rosen & Katz (especializado em fusões empresariais, investimentos estratégicos, mercado de capitais e governança corporativa). Portanto, trata-se de uma iniciativa que reforça o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas e produção intelectual conexa, derivadas do interesse (aparentemente forte entre profissionais da advocacia global) em expandir a apropriação jurídica da chamada “economia comportamental”, que deu impulso também às discussões sobre “finanças comportamentais” (ver, ainda, discussões correlatas aqui e aqui). […]

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