O que é preciso para ligar Marte a Plutão

O jornal Financial Times (FT) publicou ontem (10 de julho de 2007) matéria com o título sugestivo: “Políticos são de Marte, banqueiros são de Plutão” [“Politicians are from Mars, bankers from Pluto”]. A matéria informa que, na Inglaterra, poucos parlamentares se interessam em freqüentar um curso sobre mercado financeiro que lhes é oferecido anualmente pela organização Parliament Trust. E que, dentre os que freqüentam, o desconhecimento sobre finanças é muito grande.

Apesar de a City (o distrito financeiro de Londres) ficar geograficamente muito próximo de Westminster, onde se localiza o Parlamento, culturalmente, — diz o jornal — é como se os políticos fossem de Marte e os financistas, de Plutão. Mas esse abismo entre os dois mundos não resulta de um simples desinteresse dos representantes do povo.

De fato, conforme sublinha o FT, a City mudou muito. “Há poucas décadas, o sistema financeiro mundial era organizado de acordo com princípios que poderiam ser entendidos por qualquer pessoa (relativamente educada) ou político”, observa o jornal. As principais  noções a que correspondia o mundo das finanças eram o dinheiro (cash), os empréstimos, as ações [das empresas nas bolsas de valores] e conceitos semelhantes.

Contudo, nos dias que correm, a situação mudou muito. Conforme indica o FT:

“Nesta década, a máquina de fazer dinheiro (money machine) passou por um processo de mutação, transformando-se em uma vasta, obscura e multicéfala hidra. Assim, a atividade da City não mais ocorre simplesmente em torno de empréstimos ou ações. Ao invés disso, o setor mais lucrativo e de crescimento mais rápido é o mercado de balcão para derivativos – ou negócios privados envolvendo instrumentos financeiros ultra complexos que podem ser extremamente difíceis de serem entendidos”.

Após tecer outros comentários, o jornal conclui sugerindo ser necessário que os dois mundos (o da City e o de Westminster) se aproximem mais.

Provavelmente, para que tais mundos convivam sem conflitos extremos, será necessária uma ampliação da atividade de regulação pública de mercados financeiros internacionais. Em outras palavras, será preciso que se elabore um direito e se implementem reformas e instituições, que permitam estabelecer algum tipo de equilíbrio entre especulação financeira praticada em mercados privados e o genuíno interesse público.

As condições presentes não são as mais auspiciosas para isto: (a) o voto dos cidadãos exercido de quatro em quatro anos em jurisdições territoriais discretas, combinado com (b) a especulação minuto-a-minuto exercida de maneira estrategicamente (quando não também eletronicamente) coordenada em múltiplas jurisdições territoriais simultaneamente e (c) a existência insuficiente de doutrinas jurídicas sobre as quais repousem práticas eficientes de regulação do setor — esses elementos são a fórmula para a perpetuação e o agravamento do problema.

A ponte entre Marte e Plutão certamente necessitará aproveitar muitos insumos de doutrinas jurídicas capazes de, sem inviabilzar os mercados financeiros e sua dinâmica evolutiva, fazer convergir, na prática, a especulação dos financistas com as fantasias do bem, vivenciadas pelos cidadãos.   

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