O Anti-utilitarismo como Elemento de Interdisciplinaridade da AJPE

A análise jurídica da política econômica (AJPE) não se restringe a adotar cegamente a perspectiva de uma escola de pensamento econômico, como faz a Análise Econômica do Direito, que é dependente da escola “neo-clássica” de Economia. Ao contrário, a AJPE beneficia-se de contribuições de diversas abordagens existentes no debate acadêmico sobre o que a Economia, enquanto disciplina, é e deve ser.

Além disso, a AJPE incorpora análises e debates de outras ciências sociais, capazes de contribuir com argumentos de crítica construtiva, sobre as idéias e práticas políticas, jurídicas e sociais (locais e internacionais e suas interconexões) que contribuem para a formação da realidade em que vivemos. E sabemos que esta realidade não é boa em todos os seus aspectos (por exemplo, na pobreza, exclusão, guerras etc.).

Um exemplo de movimento intelectual e acadêmico que se opõe ao que seus adpetos chamam de “imperialismo economista” é o chamado MAUSS – “Mouvement anti-utilitariste dans les sciences sociales” (ou “Movimento anti-utilirarista nas ciências sociais”), fundado na França em 1981. Este movimento, intencionalmente batizado com o nome de um clássico dos clássicos da antropologia econômica (Marcel Mauss), anima debates em que convergem diversas disciplinas, inclusive a antropologia econômica, a filosofia política e a psicanálise. Entre os temas debatidos pelo MAUSS estão: a nova sociologia econômica de Granovetter e Swedberg, a crítica da teoria dos jogos, a atualidade dos trabalhos de Karl Polanyi, a questão da confiança etc. E é relevante que o nome (Mauss) inspirador do movimento seja vinculado à noção de “fato social total“, que aponta para as múltiplas dimensões (econômica, moral, jurídica, cultural etc.) concomitantemente inerentes à experiência social.

Portanto, os juristas que se debruçam sobre a economia e sobre os atos humanos que contribuem para a formação de sua estrutura, não devem negligenciar (como faz a abordagem da Análise Econômica do Direito) mais este elemento da interdisciplinaridade, capaz de conduzir a um entendimento amplo sobre a aceitabilidade, ou não, de diversas decisões tomadas em nome da pura eficiência econômica.

3 Responses to O Anti-utilitarismo como Elemento de Interdisciplinaridade da AJPE

  1. Thiago Jabor says:

    Excelente post. Cabe ressaltar ainda a incorporação de estudos sobre ética e economia, que fornecem à AJPE elementos importantes para entender motivações alternativas da ação econômica, nem sempre baseada no cálculo do ganho e na busca pelo interesse individual egoísta.

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  2. murilolubambo says:

    Vi essa reportagem sobre como o cérebro humano age com base em critérios emocionais não-utilitaristas, contrários à eficiência econômica, quando o homem está diante de decisões moralmente difíceis. A neurologia pode ser mais uma disciplina que pode dar explicações úteis à abordagem contrária à análise econômica ao lado da psicologia e da psicanálise.
    http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/science/article1550784.ece

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  3. […] Já foi apontado neste blog (ver aqui) que o Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais (MAUSS, na sigla em francês) constitui um […]

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