Ligações perigosas: STF e Banco Mundial de mãos dadas

18/12/2011

As decisões de tribunais judiciais podem afetar vários aspectos do funcionamento da economia de um país. Este é um fato que certamente poucos negariam. Decisões sobre o direito de greve, ou questões tributárias ou de finanças privadas ou públicas, podem ter impactos enormes sobre o modo como os agentes econômicos decidem. E, a partir deste tipo de efeito, podem-se definir ou excluir, em certos contextos, alguns condicionantes relativos a oportunidades e à qualidade do crescimento econômico de um país.

Por isso chama atenção que, em um comunicado de 24-nov.-2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha anunciado sua adesão a um programa de uma entidade internacional com trajetória muito conhecida na área de reformas da política econômica: o Banco Mundial (BM). Segundo o comunicado, o STF “aderiu ao Fórum Global sobre Direito, Justiça e Desenvolvimento, lançado na quarta-feira (16/11 [/2011]) pelo Banco Mundial na cidade de Washington, DC, nos Estados Unidos.”  Por sua vez, o documento que divulga o Fórum do BM explicita que é seu objetivo “a identificação, discussão e produção de soluções legais inovadoras e customizadas aos desafios do desenvolvimento em nível global, regional ou nacional.”

Ao que consta, o interesse do STF em se aproximar do BM já existe há alguns anos, mas a adesão à iniciativa lançada há cerca de um mês pela entidade internacional põe o assunto em evidência. E esta adesão chama ainda mais atenção, quando se percebe que, por sua ascendência sobre o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o STF adquiriu, desde a reforma de 2004, um poder de influência disciplinadora sobre o sistema judicial brasileiro como um todo.

Surpreende que um tribunal brasileiro, e em especial o STF, procure alinhar-se com programas e ideias de uma instituição financeira multilateral Leia o resto deste post »


Sigilos em várias esferas dificultam busca por justiça econômica: novo livro oferece pesquisa relevante

09/11/2011

Segundo Barry Eichengreen (ver, por exemplo, aqui) e outros autores, a operação do Padrão Ouro Internacional chocava-se contra os interesses de boa parte da sociedade, que à época era ainda destituída do direito ao voto. Hoje, vemos o mesmo choque de interesses repetir-se, derrubando governos, mesmo na presença do voto democrático ampliado.

Uma das dificuldades para tornar os mercados financeiros e a operação de empresas em geral convergentes com visões de “bem” ou “justiça” presentes  na sociedade está na amplitude de sigilos de que gozam que inúmeras operações financeiras, com o beneplácito da lei e do direito.  Para a discussão de um exemplo, referente à intransparência do mercado de swaps sob a legislação dos Estados Unidos (EUA), ver aqui.

Em boa parte, o amplo sigilo de que gozam as referidas operações decorrem da existência dos chamados paraísos fiscais. Informações acessíveis sobre Leia o resto deste post »


Controles cambiais: relevância do debate atual para a AJPE

31/10/2011

O uso de controles cambiais (ou controles de capital) pode ajudar um país a atingir alguns objetivos de política econômica. E o reflexo disto afeta inúmeras estratégias econômicas de atores privados, inclusive, obviamente, empresas comerciais e os cidadãos comuns.

Por isso, a política cambial (que pode recorrer a controles cambiais e/ou a outras práticas) afeta interesses, vários dos quais adquirem a conotação de “direitos subjetivos” e podem estar presentes na experiência de sua fruição. A partir desta percepção, abraçada pela Análise Jurídica da Política Econômica (AJPE), aspectos da política cambial tornam-se relevantes para discutir diversas questões jurídicas.

Tendo isto em mente, aos membros do Grupo Direito, Economia e Sociedade (GDES) interessa  Leia o resto deste post »


Políticas convencionais não estão funcionando: economistas pedem ‘plano B’ para a Inglaterra

30/10/2011

Cerca de uma centena de professores de economia de universidades britânicas, encabeçados por Ha-Joon Chang (Universidade de Cambridge), publicaram recentemente uma ‘carta aberta‘ ao governo inglês, pedindo que um novo modelo de política econômica seja adotado o quanto antes. Os economistas criticam o governo da Inglaterra por desprezar evidências mais do que claras de que o atual modelo (conservador) não está funcionando. Tais evidências, como dito na carta, são informações e pronunciamentos de diversas entidades importantes, tais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Institute for Fiscal Studies (IFS) e a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O “plano B” mencionado pelos economistas repousa sobre algumas ideias não muito complexas, e que poderiam ser adotadas, sem grandes dificuldades, caso houvesse Leia o resto deste post »


Direito, economia e competição no Brasil: visões recentes

29/10/2011

Desde a crise de 2008, decresceram as pressões internacionais para que a política econômica — e as doutrinas jurídicas que a acompanham — seguissem um figurino que supervalorizava e idealizava o que muitos chamam de “o mercado”. A confusão resultante da crise e a menor pressão internacional, obviamente, criam a necessidade de inovar as ideias econômicas consideradas mais importantes e abre espaço para que passem a ganhar novo fôlego visões menos idealizantes sobre as relações entre a “economia de mercado” e sua regulação jurídica, incluindo a regulação por meio do chamado “direito concorrencial”.

PGMC Anatel 2011 - Esquema Analítico

Fonte: www.anatel.gov.br

Dois exemplos podem ser vistos em palestras recentemente proferidas sobre a regulação de mercados e a defesa da concorrência, tendo em vista a necessidade de avaliar opções de desenho do Plano Geral de Metas de Competição (PGMC) das telecomunicações no Brasil (ver aqui e aqui).

As palestras, de Leia o resto deste post »


Política da regulação financeira, direitos fundamentais e a insustentável intransparência dos derivativos

22/10/2011

É um fato conhecido que as configurações e práticas dos mercados financeiros estiveram na origem da crise das hipotecas subprime e suas consequências até hoje. Esta crise, que se espalhou para inúmeros mercados, tem causado reações de governos. E estas, a seu turno, tem afetado adversamente a fruição de direitos fundamentais e direito humanos em várias partes do globo (ver exemplos aquiaqui e aqui). Esta crise, segundo o Ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, começa a afetar os países emergentes. As ensolaradas praias brasileiras não ficarão necessariamente imunes às agitadas ondas de incertezas e surpresas que hoje afligem mais outras partes do mundo.

Mas a situação hoje é preocupante em grande parte porque os esforços de cooperação internacional para a adoção de reformas aplicáveis aos mercados financeiros tem avançado lentamente e de maneira muito pouco eficaz, estando o processo prejudicado ambiguidades e por agendas políticas conflitantes. Entre os problemas aí está a resistência de governos do Norte global a efetivamente aceitar um significativo aumento da Leia o resto deste post »


Direito e Economia 2.0 — sem fronteiras

13/10/2011

Com o lançamento de seu Law and Economics Institute, há três dias (em 10-out.-2011), a Universidade de Chicago tornou visível o seu recente esforço para dar novo impulso ao movimento que ficou conhecido como “Direito e Economia” (Law & Economics).

A iniciativa, que procura construir um ambiente institucional sobre a base estabelecida naquela universidade a partir dos anos 1950-1960, relacionada ao crescimento da chamada “Análise Econômica do Direito ao estilo de Chicago”, representa um investimento financeiro importante (inclui 1 milhão de dólares/ano) e mobiliza vários professores de diversos departamentos ou faculdades, incluindo docentes e pesquisadores das áreas de direito, economia, administração, além de programar  Leia o resto deste post »


Política econômica, privacidade, direitos e opinião pública

06/10/2011

É um truísmo o fato de que que, nas democracias, existe um liame entre as decisões de política econômica e a opinião pública: os impostos e o orçamento são votados no parlamento, eleito pelo povo; os ministros da fazenda são chamados a prestar contas ao mesmo parlamento  etc. E existe também uma relação entre decisões de política econômica e a fruição de direitos humanos e fundamentais. Pacotes ou programas de ajuste podem diminuir o acesso à saúde, educação, habitação etc. e provocar protestos dos cidadão atingidos — ver exemplos aqui e aqui).

Movimentos sociais improvisam centro de imprensa em parque próximo a Wall Street

Mas é preciso lembrar que, do ponto de vista institucional, os bancos centrais e outras agências de regulação do sistema financeiro ficam menos entrelaçados com as instituições políticas representativas da opinião pública. Este fato, aliado à crise econômica atual, em cuja origem está a atuação de bancos de investimento e outras entidades financeiras, tem gerado muito descontentamento popular em muitos países mais afetados por dificuldades decorrentes de práticas financeiras criticáveis. Nesse contexto, não deixa de ser estranho que o Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) tenha se interessado recentemente em estabelecer  Leia o resto deste post »


Novo artigo sobre ‘direito e desenvolvimento’

27/09/2011

A professora Mariana Mota Prado publicou um novo artigo, em que procura descrever resumidamente uma parte da produção acadêmica que tem recebido o nome de “Direito e Desenvolvimento” (Law and Development). O artigo está disponível aqui (via L&D Blog).

O(a)s leitore(a)s notarão que a literatura do Direito e Desenvolvimento (D&D), embora não homogênea, tende a ter pressupostos que Leia o resto deste post »


Movimentos sociais ocupam Wall Street

21/09/2011

Depois da primavera árabe, dos protestos na Espanha (desde o 15-M  etcetera)  e em Israel, e depois dos ingleses e franceses, (ver texto e links aqui) e chilenos, parece que movimentos sociais resolveram entrar em ação direta (e pacífica) em Wall Street.

Ver aqui, aqui e aqui (inclui vídeos).

[Atualização 02-out.-2011: Ver mais sobre protestos em Nova York aqui (inclui vídeo) e a propagação de mobilizações correlatas em Boston aqui e na Califórnia aqui e aqui (incluem vídeos). Ver também aqui]  [Atualização 10-out-2011: Protestos cruzam o Atlântico, conforme notícia de O Estado de São Paulo: "Os protestos sob o lema 'Occupy Wall Street', que começaram há 3 semanas em Manhattan, se espalharam para dezenas de cidades, em 45 dos 50 Estados americanos. Neste domingo de calor incomum para o outono no nordeste americano, a multidão de manifestantes, turistas e jornalistas cobrindo os protestos não cabia no Zuccotti Park, a praça de 3 mil metros quadrados onde o movimento está acampado. (...). Em Londres, o movimento Occupy London lançou um website e planeja ocupar uma área ainda não anunciada perto da bolsa londrina, no dia 15." Ver matéria completa aqui.]

[Atualização 15-out.-2011: A BBC Brasil noticia: "‘Ocupações’ se espalham dos EUA ao mundo. - Manifestantes estão tomando as ruas de capitais ao redor do mundo, neste sábado, para protestar contra a "ganância corporativa" e os cortes orçamentários realizados por distintos governos." -- ver matéria completa aqui]

São mais pessoas indignadas em verem frustrada a fruição de seus direitos fundamentais. E o que os juristas tem feito ou dito sobre isto? Até agora, nada de significativo, pois os caminhos que os habilitariam a criticar as políticas e as instituições econômicas ainda precisam ser mais bem iluminados.



Um pouco de história intelectual da economia

21/09/2011

Nesses tempos de desorientação para muitos economistas, um dos resultados de recentes esforços para reformar a organização conceitual da economia tem sido a busca por modos de compreende-la com base em relações entre a economia e a história — o que inclui a história intelectual da disciplina.

Um vídeo produzido pelo Institute for New Economic Thinking (INET), e publicado na internet há cerca de um mês, apresenta uma entrevista com  Philip Mirowski, professor de economia da Universidade de Notre Dame (EUA), que tem se dedicado a estudar a economia a partir de perspectivas informadas pela história.

Na entrevista, Mirowski discorre brevemente sobre suas pesquisas e livros. Por meio de comentários rápidos e diretos, Mirowski dá pistas sobre o que estuda, incluindo temas que têm a ver com Leia o resto deste post »


Mapa das fusões bancárias nos EUA

13/09/2011

Voltando mais uma vez ao tema do “valor estratégico” das finanças (ver aqui e aqui), vale a pena lembrar que, além de outras reformas que contribuem para reforçá-lo — por exemplo — a desregulação financeira (ver aqui), há que considerar a onda de fusões bancárias ocorridas nos últimos anos.

Um mapa de fusões de bancos dos Estados Unidos (EUA) entre 1990 e 2009 está disponível no gráfico abaixo. Clique na imagem para melhor visibilidade.

Fonte: Mother Jones


Tributação, dogmática jurídica e sexo combinam?

03/09/2011

O direito brasileiro é marcado pelo apego de muitos juristas a complexos malabarismos verbais e conceituais, cuja necessidade é questionável. Pode ser até que certas políticas públicas economicamente úteis tenham sua efetividade prática inviabilizada por argumentos que usem tais malabarismos do formalismo verbal. Mas pode acontecer também que a dogmática jurídica utilize suas peculiares formulações para expressar, sobre uma política pública, o que poderia ser dito com mais singeleza e de modo mais persuasivo.

Com efeito, considere-se a seguinte situação: uma cidade passa a tributar o sexo praticado comercialmente em seu território. Será isto certo ou errado, juridicamente? Não se trata de ficção, pois  Leia o resto deste post »


Finanças estratégicas da China?

25/08/2011

E, por falar em “valor estratégico” das finanças, parece que a China procura meios de utilizar de modo mais proveitoso seus fundos soberanos. Mas parece que a confusão é grande. Ver a matéria publicada pelo professor Larry Catá Backer (Penn State University) sobre isto. Confira aqui.

A confusão aí, no entanto, não parece ser menor do que a que tem marcado algumas práticas bancárias descritas nos vídeos disponíveis aqui.

E o fundo soberano brasileiro? Sobre esse fundo, o professor Fernando Cardim (UFRJ) escreveu em 2009: “no presente, sua importância é muito restrita.”   A situação não parece ter mudado.


Defesa de tese sobre regramento jurídico de moedas sociais no Brasil

19/08/2011

Seria possível vislumbrar um mundo em que os cidadãos pudessem optar livremente por usar quantas e quaisquer dentre múltiplas moedas circulantes, administradas por organizações ou redes (eletrônicas) sociais? Amostras desse mundo ou de aproximações dele podem ser vistas aqui;  aqui; ou  aquiaqui e aqui; ou ainda aqui, aqui e em muitos outros lugares.

Moeda do Banco Paju

As “moedas sociais” e os desafios que apresentam do ponto de vista de sua regulação jurídica no Brasil são objeto de pesquisa de Marusa Vasconcelos Freire. Na próxima segunda-feira (dia 22-ago.-2011), às 09h, no Auditório Joaquim Nabuco do prédio da FA na UnB,  Marusa defenderá Leia o resto deste post »


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